ALBERTO FERNÁNDEZ E O EXEMPLO PORTUGUÊS

Rolando Santos*

 Durante sua visita a Portugal, Alberto Fernández se encontrou com o primeiro-ministro António Costa 

Como se diz em Portugal, o povo decidiu, está decidido: Alberto Fernández vai ser o próximo presidente da Argentina.

Dada a situação económica do país, o seu governo terá uma tarefa tremenda pela frente. A principal prioridade, disse ele logo após os resultados eleitorais terem sido conhecidos, é que “os argentinos deixem de sofrer”. Para tal, Fernández quer reduzir as medidas de austeridade impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelos credores estrangeiros, repondo rendimentos dos trabalhadores e pensionistas. Isso permitiria aumentar a procura interna e o crescimento económico, o que, por sua vez, geraria mais receita fiscal e uma melhoria das contas do Estado. Ou seja, a ideia é trocar um ciclo vicioso (austeridade, depressão económica, degradação das contas públicas, mais austeridade) por um ciclo virtuoso.

Bem, mas o que tem tudo isto a ver com Portugal, perguntará o leitor?

No início de setembro, o futuro presidente esteve na Europa e conversou com António Costa, o primeiro-ministro português, sobre a forma como este implementou uma política semelhante nos últimos quatro anos. O próprio Fernández deu conta, numa entrevista radiofónica, das conclusões que tirou dessa discussão, que acabaria por ter eco noutros órgãos de comunicação social.

Alberto Fernández louvou a capacidade do líder socialista português de conciliar o que é aparentemente irreconciliável num país que “veste” a camisa-de-forças do FMI: equilibrar as contas públicas e, ao mesmo tempo, aumentar os rendimentos de trabalhadores e pensionistas. Algo parecido, diz ele, aconteceu durante a presidência de Néstor Kirchner, e é isso que pretende repetir.

Como é natural, não farei qualquer apreciação sobre as medidas específicas propostas pelo futuro presidente argentino para concretizar este programa, já que os leitores estão muito mais habilitados do que eu para o fazer. Posso, contudo, dar alguns dados que poderão ser úteis para contextualizar o exemplo português e permitir avaliar os limites da sua aplicação na Argentina.

Na sequência da crise financeira mundial de 2008-2009, Portugal viu-se forçado a pedir uma ajuda de emergência de 78 mil milhões de euros a uma “Troika” composta pelo FMI, União Europeia (UE) e Banco Central Europeu (BCE). Isso aconteceu em abril de 2011, ainda sob a responsabilidade de um governo demissionário liderado por José Sócrates. Apenas dois meses depois, os socialistas foram substituídos por uma coligação de centro-direita (PSD e CDS) liderada por Pedro Passos Coelho, que introduziu um conjunto de medidas de austeridade sem precendentes na história recente do país.

Em consequência disso, o rendimento médio dos portugueses caiu 16% entre 2010 e 2013. A taxa de desemprego, que estava abaixo dos 8% antes da crise, subiu até aos 16% em 2013. Os impostos diretos e indiretos aumentaram para níveis nunca vistos. O investimento público praticamente parou e muitas despesas correntes foram cortadas para patamares que ameaçaram o funcionamento dos serviços. Quase todos os bancos sofreram enormes dificuldades e foram obrigados a pedir a ajuda do Estado. O maior banco privado foi encerrado no meio de um enorme escândalo e os seus prejuízos irão sobrecarregar as contas públicas durante muitos anos.

Apesar de tudo isto, o principal objetivo do Governo foi alcançado. A pílula amarga da austeridade reduziu o défice do Estado para níveis comportáveis, de tal modo que, apenas três anos depois de ter pedido a ajuda da “Troika”, Portugal já estava em condições de deixar o programa de resgate financeiro que tinha posto as contas públicas sob controlo externo.

A evolução, como diz a Comissão Europeia, foi notável. Em 2010, o défice chegou a 11,2% do Produto Interno Bruto (PIB), um dos valores mais altos de sempre; em 2014, já estava em menos de metade (não contando com as despesas extraordinárias resultantes da crise bancária); em 2019, estima-se que, pela primeira vez desde que a democracia foi instaurada no país, Portugal tenha um défice de zero, ou muito próximo disso.

Estes números não foram alcançados apenas através da austeridade. A economia, que tinha tido taxas de crescimento muito baixas ou mesmo negativas desde a introdução do euro, em 2002, passou a ter uma evolução muito diferente. No auge da crise, em 2012, o PIB caiu mais de 4%; em 2017 subiu 3,5% e no ano passado 2,4%. A aposta das empresas nas exportações e o crescimento enorme do turismo contribuíram muito para isso, numa primeira fase; depois, a subida do consumo interno ajudou bastante.

O que há a realçar neste percurso é a continuidade. Entre 2011 e 2019, Portugal teve dois governos, um de centro-direita (coligação entre PSD e CDS) e outro socialista (com o apoio parlamentar do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda), mas ambos mantiveram o mesmo controlo férreo das finanças públicas. Todas as grandes —e, por vezes, mesmo as pequenas— despesas dos diferentes ministérios só podem ser feitas com o acordo do ministro das Finanças. Sempre que este entende que elas podem pôr em causa o resultado anual do défice, ele procede à sua cativação. Ou seja, mesmo que a despesa esteja orçamentada e autorizada pelo Parlamento, o Governo não a faz.

Não é por acaso que descrevo este mecanismo no presente do indicativo. Apesar de as cativações serem muito criticadas pelo impacto negativo que têm em investimentos públicos considerados indispensáveis, elas continuam a ser usadas com frequência. A verdade é que elas se têm mostrado cruciais para evitar derrapagens orçamentais e, por isso, não deverão ser dispensadas tão cedo.

Reduzir o défice público tem sido o principal objetivo económico do governo português desde a crise, seja ele de esquerda ou de direita. Quer Pedro Passos Coelho, quer António Costa perceberam algo de fundamental: para tirar Portugal desta situação o mais rapidamente possível, havia que ter a União Europeia e o FMI do seu lado. Contra eles, nada se conseguiria fazer. Para obter a boa vontade dessas entidades, era preciso mostrar-lhes que o Governo era capaz de pôr as contas em dia, e foi isso que fizeram. Com enorme custo para o povo português.

O caminho podia ter sido outro. A Grécia escolheu rebelar-se contra os ditames de Bruxelas, Frankfurt e Washington, e até elegeu um governo da esquerda radical. Todavia, este acabou por ser forçado, de forma humilhante, a aceitar as imposições dos credores, e em condições ainda mais duras do que aquelas que tinham sido apresentadas inicialmente.

As divergências entre centro-direita e os socialistas em Portugal centraram-se na dimensão da austeridade e na forma como ela devia ser aplicada, e não na sua necessidade. Passada a fase inicial, de cortes profundos e transversais em salários, pensões e investimentos, Passos Coelho gostaria de os reduzir mais lentamente e concentrar esforços em melhorar a situação das empresas, para que estas pudessem depois empurrar a economia para a frente. Já António Costa propôs uma reversão mais rápida e maior dos rendimentos perdidos, de forma a melhorar a vida das pessoas e aumentar o consumo.

Estas opções foram debatidas intensamente nas eleições legislativas de 2015, que a coligação de centro-direita venceu. Apesar do enorme desgaste que o governo sofreu durante quatro anos de austeridade sem precedentes, boa parte do eleitorado entendeu que o rumo não poderia ter sido muito diferente e que o executivo tinha sido determinado na sua aplicação.

Os socialistas acabaram por chegar ao poder porque os seus adversários não conseguiram obter o apoio parlamentar necessário, e eles sim, mercê de uma aliança nunca vista com a esquerda mais radical, que passaria a ser conhecida como a “Geringonça”.

António Costa assumiu a chefia do governo e cumpriu, no essencial, as suas promessas. Por isso mesmo, e porque a economia continuou a melhorar substancialmente durante o seu mandato, foi recompensado com uma vitória clara nas eleições legislativas de 6 de outubro, embora vá continuar a precisar do apoio dos partidos mais à esquerda.

Posto isto, há que notar vários dados importantes sobre a política económica socialista dos últimos quatro anos. O primeiro é que não é possível separá-la daquela que foi seguida pelo seus antecessores, e muito menos torná-las antagónicas. Os socialistas puderam melhorar a situação dos assalariados e pensionistas também por causa do que foi feito antes e não apesar do que foi feito antes. Sem a melhoria das contas públicas, nunca haveria dinheiro suficiente para essas medidas, nem os credores as permitiriam. Os socialistas deixaram de falar em austeridade, aligeiraram-na e aplicaram-na de outra forma, mas nem por isso acabaram com ela.

Uma das provas disso mesmo é o facto de, em menos de três anos, o ministro das Finanças, Mário Centeno, ter passado de representante de um país que tinha acabado de ser intervencionado pela UE para presidente do Eurogrupo, o órgão responsável pelo cumprimento da ortodoxia financeira de Bruxelas. Passar de fiscalizado a fiscalizador-mor das finanças europeias em tão pouco tempo é obra e só foi possível graças ao seu respeito pelas regras básicas ditadas pelos credores europeus.

Fazer isso e, ao mesmo tempo, cumprir as promessas eleitorais socialistas não era nada fácil. Um dos métodos que usou foi compensar o corte dos impostos extraordinários que recaíam sobre salários e pensões com o aumento de impostos indiretos, como os que incidem sobre os combustíveis. Em Portugal, cerca de dois terços do preço final de um litro de combustível corresponde a taxas. Isto significa que boa parte do dinheiro que os portugueses recuperaram por um lado foi parar aos cofres do Estado por outro. Assim, a carga fiscal que recai sobre os cidadãos continua muito elevada, tendo atingido em 2018 o valor mais alto desde 1995: 35,4% do PIB.

Outro dos factores que há que ter em atenção ao analisarmos as possibilidades de transferência do modelo português é a diferença enorme que há no enquadramento internacional. Como o próprio Alberto Fernández reconheceu na sua entrevista radiofónica de setembro, o facto de Portugal fazer parte da União Europeia e da Zona Euro colocam-no numa situação muito diferente da Argentina.

A política redistributiva do Partido Socialista só foi possível por causa da política monetária seguida pelo Banco Central Europeu. Desde 2016 que a taxa de referência para os empréstimos bancários é 0% e o BCE encetou um enorme programa de compra de dívida dos países mais afetados pela crise, entre os quais Portugal. Foi isso que que lhes permitiu aguentar os piores momentos, em que mais ninguém estava disposto a dar-lhes crédito. Agora mercê da ação do BCE, Portugal consegue obter empréstimos a taxas negativas, o que lhe dá a possibilidade de fazer uma reestruturação da dívida encapotada. O MInistério das Finanças tem substituído a dívida mais antiga, e mais cara em juros, por dívida nova em condições mais favoráveis, poupando assim milhares de milhões de euros.

É claro que é sempre possível ver o reverso da medalha e dizer que, se Portugal ainda mantivesse a sua moeda antiga, o escudo, teria tido muito mais flexibilidade para lidar com os efeitos da crise. Todavia, como os argentinos bem sabem, imprimir mais papel-moeda para resolver problemas de curto prazo acaba sempre por trazer consequências muito piores no longo prazo.

O que também me parece importante reter para o caso argentino é o facto de o FMI ter reconhecido que a dose de austeridade imposta nos países europeus sob resgate ter sido excessiva. Christine Lagarde, a ex-diretora-geral da organização disse logo em 2013 que o FMI «foi o primeiro a dizer ‘atenção, é demasiada consolidação orçamental, demasiado depressa, é preciso dar tempo ao tempo’. E dissemos a mesma coisa tanto para a Grécia, como para Portugal, ou para Espanha, que não estava sob programa».

Esta posição é relativamente consensual em Portugal. Oito anos depois de o país ter ficado à beira da bancarrota e de ter pedido ajuda à “Troika”, há a noção clara de que se poderia ter alcançado os mesmos resultados, ou até melhores, com menos sofrimento.

 

Rolando Santos

* Licenciado em História pela Universidade do Porto (1998) e pós-graduado em História, Defesa e Relações Internacionais pela Academia Militar do Exército Português e pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa (2007).

Jornalista especializado em assuntos internacionais da estação de televisão portuguesa TVI e autor de centenas de artigos jornalísticos sobre temas dessa área.

Publicou em 2005 o livro “Terrorismo em Direto – A Grande Manipulação”.

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DOS TIPOS DE CONQUISTAS ENTRE PUEBLOS Y NACIONES

Agustín Saavedra Weise*

Imagen de DarkWorkX en Pixabay

Hay varias maneras de sojuzgar a un pueblo o grupo de personas. Se lo puede hacer al estilo romano, dejándole a los vencidos algo de libertad, pero con la clara advertencia de que un paso más allá motivará que las legiones destruyan lo que se les plazca. Los ingleses en épocas más recientes fueron maestros en este “arte” y así conquistaron la cuarta parte del globo. Previamente sojuzgaron a las naciones de su propia isla: Gales, Irlanda y Escocia. Irlanda se les fue de las manos pero quedó Irlanda del Norte. Su Majestad Británica abrió las puertas del mundo a los ingleses sin necesidad de que emigren; entre el siglo XIX y mediados del XX, el imperio británico abarcaba los cinco continentes.

Adonde iban los oriundos de Inglaterra ondeaba su pabellón, se hablaba su idioma, se tomaba el té, jugaban al bridge y se bebía whisky. Es más, exportaron deportes hoy universales como el fútbol el rugby, el polo y el cricket. Los nativos de la colonia de turno tenían su auto gobierno pero con la amenaza latente de ordenar la represión imperial ante cualquier rebeldía. Los ingleses convivían sin prodigarse, pero no exterminaron razas ni eliminaron lenguas o costumbres. Trataban con aires de superioridad, indiferencia o desdén a los no ingleses, pero no les hacían daño, salvo situaciones extremas.

Al contrario, el que pretende dominar en forma “dura”, ambiciona todo lo que poseía el subyugado más lo que había en su entorno. Y no quiere como vecino ninguna cara distinta de la suya, sino otras similares a las de él. Para los aristócratas del pasado ese prejuicio les resultaba aberrante; la forma física o el color de piel de los súbditos era algo secundario. No aceptaban la igualdad pero tampoco aceptaban el exterminio; se consideraban “superiores” y punto. El aristócrata y explorador Alexander von Humboldt increpó al presidente estadounidense Thomas Jefferson por el trato de los afroamericanos. El mandatario le expresó al científico alemán que la esclavitud de los negros era “inevitable” y “económicamente positiva”. No en vano se dice que la sumisión caracterizó a las conquistas aristocráticas y el exterminio o la expulsión fue típica de las “democráticas”. La propia Constitución de EEUU afirmaba que “todos los hombres son creados iguales” mientras hombres, mujeres y niños esclavos, eran mera propiedad privada… Esa inconcebible aberración duró hasta 1865.

Si para los expulsados no hay lugar porque los vencedores se apropiaron de tierras y riquezas, su triste destino será desaparecer o sobrevivir en reservaciones. Existen básicamente dos clases de guerra o de dominio, según que la meta sea exterminar o hacer dócil al vencido. En el primero se persigue su eliminación y en el otro sólo torcer su voluntad. En el segundo caso basta con que el enemigo deponga armas, abandone “x” alianza, ceda o devuelva un territorio, etc. Si se trata -por el contrario- no sólo de vencer al oponente sino también de arrebatarle lo que posee, entonces quedan únicamente la expropiación, el genocidio o el éxodo forzado. Es muy triste, pero así han estado las cosas en este mundo cruel a lo largo de siglos; en muchos casos siguen ahora igual e inclusive peor, pese a los avances del Derecho internacional y de los Derechos Humanos.

 

*Ex canciller, economista y politólogo. Miembro del CEID y de la SAEEG. www.agustinsaavedraweise.com

Tomado de El Deber, Santa Cruz de la Sierra, Bolivia, https://eldeber.com.bo/154727_dos-tipos-de-conquistas-entre-pueblos-y-naciones

LA PROVISIÓN DIARIA DE ALIMENTOS PROTEICOS A 3 MILLONES DE NIÑOS DESDE LA PESCA

César Augusto Lerena*

 

Imagen de Susanne Pälmer en Pixabay

La provisión de alimentos a las poblaciones vulnerables mediante cajas o bolsones, desde la instauración del Programa Alimentario Nacional (PAN) de Alfonsín, y todos los que lo sucedieron en centros o comedores de distinto tipo, se han basado fundamentalmente en el suministro de carbohidratos, con una baja o nula provisión de hortalizas frescas y alimentos proteicos. En síntesis, insuficientes para proveer una dieta nutricionalmente balanceada, especialmente en los niños y adolescentes. Ello está motivado en la carencia de transportes y cámaras de refrigeración, destinados al mantenimiento de la aptitud sanitaria de estos alimentos altamente perecederos, durante los procesos de almacenamiento, distribución y entrega de los programas sociales de alimentación, además de los costos de hortalizas y carnes.

La tecnología ha avanzado y, hace años que es posible, envasar hortalizas frescas con atmósfera modificada para prolongar su vida útil a tiempos superiores de entre 7 y 15 días y, con ello, facilitar su traslado y guarda; pero, no nos referiremos aquí a éstas sino al suministro de proteínas —aminoácidos esenciales de la mejor calidad, solo comparables con la leche materna— que proveen los pescados, además de grasas insaturadas y Omega 3, que, como sabemos, actúan favorablemente en el sistema circulatorio y como antioxidantes, respectivamente, entre otras virtudes.

El promedio de consumo mundial de productos de origen pesquero es del orden de los 19kg/año por persona, mientras que en la Argentina el consumo está por debajo de los países más pobres y de los más ricos con unos 6kg/año/per cápita, es decir, menos que la media y, sensiblemente menor que los países desarrollados que van de 35 a 70kg/año por persona. Es decir, en nuestra dieta alimentaria, esta proteína esencial está virtualmente ausente.

Supongamos, que entonces nos decidiéramos a incorporar pescado en la dieta de niños y adolescentes para resolver la carencia que hemos mencionado de proteína en los programas sociales, para lo cual deberíamos pensar en la provisión de hamburguesas o empanados de pescados desmenuzados, saborizados o no, para la alimentación en los centros urbanos y, en productos termoestabilizados o conservas de pescados para su entrega en los ámbitos remotos. Ello produciría dos importantes efectos, el primero, contribuir a paliar el hambre y la desnutrición en la niñez y, el segundo, revitalizar la industria pesquera conservera y de empanados congelados, generando un importante mano de obra ocupada en la actividad. Esto es lo que el autor ha llamado “La Alimentación Social para la generación de desarrollo industrial y empleo” (1996), cuyo proyecto iniciaron en 1983 los ex gerentes de Alpesca-Conservas Cascabel (Federico Bensadón) y de Ventura-Conservas Dársena (César Lerena) cuando insertaron ese año dos latas de merluza carioca (que los fileteros descartan por su pequeño tamaño) en las cajas del programa PAN, permitiendo, por un lado, duplicar la producción nacional de conservas de pescado y, por el otro, a partir de conocerse popularmente el producto, ingresar estos alimentos enlatados a las góndolas de los comercios, cuestión que nunca antes había ocurrido, a la par de generar un importante desarrollo tecnológico, que aportó el INTI, para adecuar esta especie a su utilización en la conservación por esterilización.

A esta altura agregaremos, que la pesca, debe regularse, si se quiere que sea sostenible y contribuya al bienestar nutricional, sanitario, económico y social, en acuerdo con lo que la FAO sugiere en su “Código Internacional de Conducta Responsable”, disuadiendo las actividades de buques que depredan (descartan) el recurso, teniendo en cuenta, las necesidades de las comunidades pesqueras que requieren de él para su subsistencia, como es el caso de Argentina, donde una gran cantidad de pueblos y ciudades del litoral marítimo depende de esta actividad. Es decir, optimizar la explotación no solo es una cuestión económica, sino una “Responsabilidad Social” inherente al concepto moderno empresario, donde, además, siendo un recurso del Estado, su explotación eficiente debiera ser una obligación del concedente y el concesionario.

Dicho esto, es inadmisible que durante la explotación se descarten unas 300 mil toneladas/año de pescados —un recurso de todos los argentinos— que podría proveer de proteínas a unos 3 millones de niños y adolescentes por día y que, técnica y económicamente, es posible evitar su descarte y aprovechar esta materia prima de la mejor calidad nutricional para ser utilizada en los programas sociales y, a la par de ello, generar nuevas actividades industriales y unos 10.000 empleos/año.

El número de 300 mil toneladas descartadas por año no es arbitrario. El BID en su “Proyecto de Desarrollo Pesquero Sustentable” (2013), informó que en Argentina hay un 20% de descarte y subdeclaración. Ello nos estaría indicando que, desembarcándose unas 800 mil toneladas/año, los buques argentinos tirarían al mar o sub-declararían todos los años, unas 160 mil toneladas de pescados aptos para el consumo. Por su parte, la Auditoría General de la Nación (Res. Nº 17/08, 09/11 y 032/15) manifestó: “No hay sanción a la pesca incidental de más del 10% de merluza; su Biomasa Reproductiva sigue en estado crítico y el INIDEP precisa que los buques no usan mecanismos de selectividad en la pesca de langostino y tiran unas 32 mil toneladas de merluza/año”. En igual sentido, el Inf. Téc. Of. 46/09 del INIDEP indica: “Los partes de pesca (los informes empresarios de las capturas) son inconsistentes, hay sobrepesca, se pescan juveniles, no se declara pesca y los descartes son del 20 al 30%” y, el Inf. Tec. Of. 32/15 del INIDEP (Santos-Villarino) dice: “se descartan entre 52.000 y 108.000 toneladas de merluza hubssi por año”; es decir, el 41% del total de la merluza desembarcada, aunque aquí faltaría agregar todas las especies consideradas “no comerciales” que igualmente se descartan una vez capturadas. Y el mismo informe continua: “Persiste una mayor presión pesquera sobre el grupo de 2 años (juveniles)”, es decir, que además de depredar —porque el inicio de la madurez ocurre a los 2,6 años— se impide el crecimiento de estos ejemplares, que no alcanzan todo su desarrollo y peso y, un mayor volumen de la Biomasa Reproductiva, con la consiguiente disminución del stock pescable. Este informe en 2017 indica que el grupo de edad fue de un promedio de 2,2 años, continuando la depredación y en la pesca incidental del langostino a un promedio de un año, es decir que desde hace unos diez años la captura es sobre los juveniles, en la más absoluta transgresión a la Ley de Pesca 24.922 (Art. 21º inciso o). Ya en diciembre de 2018, el Informe 137/18 INIDEP (Villarino-Tringali-Louge) refiere que el bycatch (captura incidental) de merluza de la flota langostinera, accedió a entre un 38% y 43% dentro del área de veda patagónica y al sur y este de la veda de reproductores, con un 40% de juveniles de menos de 35cm; talla que ni siquiera procesan los fileteros y sobre datos de solo la flota observada, que no incluye la flota congeladora y la fresquera de altura de merluza y otras especies.

Con los informes citados relativos a los descartes de diversa índole (especies no comerciales, pesca incidental, sub-declaración, etc.) y los datos estadísticos de la Subsecretaría de Pesca de la Nación (véase desembarques de langostinos y merluza de Chubut, por ejemplo), más el rendimiento inadecuado en los procesos a bordo, se puede inferir el descarte al mar de unas 300 mil toneladas de pescados anuales, de la mejor calidad y aptitud para el consumo humano y, a todo este brutal descarte al mar de proteínas, habría que agregar los residuos que se descartan al mar sin fabricar harinas en los buques congeladores, otra importantísima fuente de proteína para consumo humano o animal descartada.

Según el INDEC el índice de pobreza del primer semestre de 2019 alcanzó al 35,4%, es decir que hay 15,9 millones de pobres en Argentina, de estos 7,7% son indigentes (tienen ingresos insuficientes para adquirir los alimentos). Por su parte, el reporte de la UCA muestra que 51,7% de niños y adolescentes tiene dificultades alimentarias, un 29,3% tiene un déficit en sus comidas, mientras que un 13% pasó hambre. Además, la asistencia de los menores a comedores infantiles creció de forma constante hasta el 35%, por lo que estimamos que en el país hay un importantísimo número de niños desnutridos, mientras se tiran cientos de miles de toneladas de proteínas al mar.

Este volumen descartado de pescados, aptos para la alimentación, de ser aprovechados, implementando una política, ya implementada en la Unión Europea desde enero de 2014, más aun teniendo en cuenta que en la Argentina el descarte está prohibido desde 1998 (Art. 21º Ley 24.922) y a partir de este se resolvería el hambre de tres millones diarios de niños y adolescentes. Dar solución a esta cuestión dramática, reduciría el hambre y la pobreza y, cumpliría con el derecho básico a la alimentación reconocido en nuestra Constitución, la Declaración Universal de Derechos Humanos (1948) y consagrado en el Pacto Internacional de Derechos Económicos, Sociales y Culturales (1966).

La FAO y la OMS han dicho: “el alimento no solo tiene que ser inocuo, sino suficiente” y, la insuficiencia se da, en este caso, con motivo de la depredación (el descarte) del recurso, del que viven miles de trabajadores argentinos y sus familias, radicados en poblaciones donde la posibilidad de sustituir o reconvertir su actividad laboral es remota o imposible. El índice de desocupación en la Argentina en el segundo trimestre del 2019 alcanzó al 10,1% alcanzando a unos 2,1 millones de personas, por lo cual, al implementar un programa de este tipo se podría ayudar a paliar la desocupación generando unos diez mil nuevos puestos de trabajo en la industria pesquera. En este sentido, no se puede dejar de valorar que la pesca es una actividad de mano de obra intensiva, que genera trabajo en regiones inhóspitas que, de otro modo, sus poblaciones emigrarían hacia los grandes conglomerados urbanos, que ya sabemos desbordados en todo sentido. A los argentinos nos asombran las migraciones de distintos lugares a Europa, pero el gobierno nacional resulta indiferente a las migraciones internas en busca de oportunidades laborales, dejando atrás, culturas y afectos.

El “uso social de este recurso del Estado”, ya previsto en la CONVEMAR, a partir de una disminución drástica de la depredación (el descarte) y contaminación del ambiente marino, adquiere una dimensión superlativa a partir de reducir el hambre y aumentar la generación del empleo.
La eliminación de la depredación (el descarte) y subutilización de los recursos se habrá de lograr con decisión política, administración eficiente y cristalina, pesca selectiva, reducción y blanqueo de la pesca incidental, tecnificación y jerarquización de los controles de capturas y los desembarcos, subastas públicas, compensación y precios de sostén a la captura y desembarco de todas las capturas.

Si el gobierno implementa un PROGRAMA DE ELIMINACIÓN DEL DESCARTE, recupera las 300 mil toneladas que se tiran anualmente y tres millones de niños y adolescentes podrían cubrir sus necesidades diarias de proteínas de la mejor calidad biológica, las que, complementadas con hidratos carbonos complejos (arroz, pastas, vegetales) que habitualmente se incluyen en los planes sociales, les permitirían acceder a los requerimientos calóricos diarios y asegurar los argentinos sanos y capaces, terminando con esa vieja e inconducente pregunta: ¿cómo produciendo alimentos para 400 millones de personas no podemos alimentar a los 15,9 millones de pobres e indigentes en nuestro país?

Cuando el problema de alimentación y nutrición se ha ido acrecentando con el correr de los años es necesario cambiar el modelo. Es posible llevar adelante un proyecto que cumpla con las obligaciones que tienen los funcionarios de cumplir con la Constitución Nacional de explotar racionalmente los recursos naturales de la Nación y proveer de bienestar y salud a los argentinos.

 

* Experto en Atlántico Sur y Pesca. Ex Secretario de Estado, ex Secretario de Bienestar Social (Provincia de Corrientes). Ex Profesor Universidad UNNE y FASTA. Asesor en el Senado de la Nación. Doctor en Ciencias. Consultor, Escritor, autor de 24 libros (entre ellos “Malvinas. Biografía de Entrega”) y articulista de la especialidad.

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